A inteligência artificial tem transformado diversas áreas da sociedade, e uma das mais recentes – e polêmicas – é a criação de “garotas do job”: modelos femininas geradas digitalmente, com aparência realista, para a produção de conteúdo adulto. Em pouco tempo, essa prática se tornou uma tendência lucrativa, impulsionada por plataformas como OnlyFans, Privacy, Fanvue e outras redes especializadas em conteúdo 18+.
No Brasil, a prática ganhou notoriedade a partir de dezembro de 2024, com influenciadoras como Elaine Pasdiora, de Porto Velho (RO), e Yara Santos, que viralizaram ao mostrar como construíram suas personagens digitais e começaram a lucrar. Em apenas três meses, Elaine afirma ter faturado mais de R$ 20 mil com a venda de conteúdo e cursos ensinando como replicar o modelo de negócio.
Como funcionam as “garotas do job”?
As personagens são criadas por meio de ferramentas avançadas de geração de imagens por IA. Com softwares de edição e ajustes de comandos específicos, os criadores constroem avatares femininos com traços físicos definidos e os colocam em cenas explícitas, simulando nudez e relações sexuais. O conteúdo, então, é vendido em sites adultos que permitem esse tipo de material – desde que haja a sinalização de que se trata de produto gerado por inteligência artificial.
A estratégia envolve também a criação de uma narrativa envolvente para a personagem virtual, muitas vezes com nomes, estilos e gostos que se conectam ao público-alvo. Um fator que chama atenção é a semelhança de algumas dessas personagens com pessoas reais ou até com as próprias criadoras dos perfis.
Quem consome esse tipo de conteúdo?
Segundo relatos de quem já atua com “IAs do job”, o público predominante são homens acima de 40 anos, muitos deles estrangeiros, residentes principalmente na Índia, Paquistão e nos Estados Unidos. Um aspecto comum entre os consumidores, de acordo com relatos, é a dificuldade de manter relacionamentos afetivos ou sexuais no mundo real.
Essa demanda crescente criou um novo nicho dentro do universo da pornografia digital: o consumo de fantasias hiperpersonalizadas, com personagens controladas totalmente por quem as criou.
É realmente lucrativo?
Embora algumas criadoras tenham relatado ganhos expressivos, especialistas e criadores experientes alertam para as armadilhas do “hype”. Cursos que ensinam a criar garotas virtuais e vendê-las por meio de IA se multiplicaram nas redes sociais, com preços entre R$ 30 e R$ 50. Eles prometem faturamento fácil, mas o retorno não é imediato e depende de diversos fatores, como estratégia de divulgação, conhecimento técnico e, principalmente, diferenciação no conteúdo.
“Existe muito interesse, mas também muita expectativa irreal”, alerta uma das criadoras entrevistadas.
O que dizem os especialistas?
Cleber Zanchettin, professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e pesquisador da área, explica que o mercado pornográfico com IA tende a crescer exponencialmente, pois une tecnologia e personalização. “Empresas estão investindo em modelos próprios para criar pornografia interativa e personalizada”, afirma.
Diogo Cortiz, especialista em inteligência artificial e professor da PUC-SP, destaca que os avanços na geração de imagens têm sido tão rápidos que o que parecia impossível há um ano agora já é uma realidade acessível.
Mas o setor não está isento de controvérsias. Em 2024, a revista americana Wired revelou que centenas de perfis de IA foram criados a partir de vídeos reais de criadores de conteúdo adulto, sendo vendidos ilegalmente em outras plataformas. Casos como esse acenderam o alerta sobre ética, consentimento e uso indevido da imagem.
E as plataformas, como lidam com isso?
Sites como OnlyFans, Privacy e Fanvue permitem a veiculação de conteúdo gerado por inteligência artificial, mas exigem que os criadores deixem isso claro aos consumidores. Ainda assim, influenciadoras como Yara Santos contaram que conseguiram cadastrar suas “garotas do job” mesmo com fotos não tão semelhantes à realidade.
A ausência de uma regulamentação específica para o conteúdo adulto criado por IA levanta uma série de debates: desde questões legais até o impacto emocional no público consumidor.
Sobre o autor:
Ramon Flaubert Macedo, jornalista e pedagogo, atua há mais de uma década nas áreas da comunicação e educação no Tocantins. É fundador do Jornal Sou de Palmas e atualmente é pós-graduando em Inteligência Artificial e Big Data, além de possuir capacitações complementares em IA Generativa, Deep Learning e Marketing Digital.