Embora os Estados Unidos tenham intensificado recentemente a pressão sobre governos aliados na América Latina, analistas avaliam que a Nicarágua não deve enfrentar, ao menos no curto prazo, uma estratégia semelhante à aplicada contra Venezuela e Cuba.
A avaliação ocorre após uma série de medidas adotadas por Washington, incluindo sanções contra integrantes do governo do presidente Daniel Ortega e de sua esposa e copresidente, Rosario Murillo. Apesar do endurecimento do discurso do secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, especialistas afirmam que a Casa Branca tem adotado uma postura mais cautelosa em relação ao país centro-americano.
Nos últimos meses, a Nicarágua tomou decisões interpretadas como gestos para reduzir tensões com os Estados Unidos. Entre elas estão a libertação de dezenas de presos após cobranças de Washington e o restabelecimento da exigência de visto para cidadãos cubanos, medida que dificulta a migração rumo à América do Norte.
Ainda assim, os EUA ampliaram as sanções em abril ao incluir dois filhos de Ortega e Murillo entre os alvos das restrições. Rubio também criticou a decisão do governo nicaraguense de cancelar futuras eleições, mas, diferentemente do discurso adotado em relação a Cuba e à Venezuela, não defendeu uma mudança de regime.
Para o professor Kai Thaler, da Universidade da Califórnia, Santa Bárbara, Cuba continua sendo prioridade na política externa de Marco Rubio, enquanto a Nicarágua ocupa posição secundária. Segundo ele, o país também não possui a mesma importância estratégica da Venezuela em razão da ausência de grandes recursos naturais.
Thaler afirma ainda que o governo nicaraguense concentra o poder em torno da família Ortega-Murillo, eliminando possíveis lideranças alternativas dentro do regime. Na avaliação dele, essa característica reduz as possibilidades de uma sucessão política semelhante à observada em outros países.
Já o cientista político Manuel Orozco, diretor do Programa de Migração, Remessas e Desenvolvimento do Diálogo Interamericano, afirma que Washington prefere apostar em um processo gradual de pressão econômica e diplomática, evitando ações que possam provocar instabilidade, aumento da repressão ou novas ondas migratórias.
Segundo Orozco, a Nicarágua vive atualmente um cenário de relativa estabilidade econômica e ausência de grandes protestos populares, fatores que tornam improvável uma intervenção direta dos Estados Unidos.
Para ele, a estratégia americana consiste em ampliar gradualmente as sanções enquanto aguarda um eventual desgaste interno do governo sandinista, no poder desde 2007.
Embora Ortega tenha criticado publicamente as sanções impostas contra seus filhos e condenado a captura do líder venezuelano Nicolás Maduro pelos Estados Unidos, especialistas consideram que essas declarações têm maior impacto interno do que prático na política externa do país.
Na avaliação de Orozco, o discurso busca manter a identidade antiamericana perante a base governista, mas não representa uma mudança efetiva na postura diplomática da Nicarágua, que tem evitado confrontos diretos com Washington.
Os analistas também concordam que, apesar das sanções periódicas, não há indícios de que os Estados Unidos estejam preparando uma ofensiva semelhante à aplicada recentemente contra outros governos latino-americanos.
A expectativa é de que Washington mantenha a política de pressão gradual, especialmente de olho nas eleições gerais previstas, em tese, para novembro de 2027, caso o governo nicaraguense mantenha o calendário eleitoral.
No cenário interno, especialistas avaliam que Rosario Murillo exerce influência crescente sobre o governo. Aos poucos, ela passou a assumir protagonismo na administração cotidiana, enquanto Daniel Ortega, de 80 anos, aparece com menos frequência em eventos públicos.
Apesar disso, não há sinais concretos de divisão dentro do governo nem de uma transição política próxima. Segundo os analistas, o cenário mais provável continua sendo a permanência da família Ortega no comando do país, com possibilidade de fortalecimento da participação dos filhos na estrutura de poder.
Mesmo diante da pressão internacional, especialistas afirmam que o governo nicaraguense demonstra capacidade de adaptação e mantém controle sobre as instituições de segurança e os mecanismos de sustentação política, reduzindo, por enquanto, as perspectivas de mudanças significativas no cenário interno.
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