Trabalhar por horas seguidas e, ainda assim, não conseguir equilibrar as contas. Essa é a realidade enfrentada por muitos motoristas de aplicativo no Brasil, segundo um estudo divulgado nesta terça-feira (23) pelo Tribunal Superior do Trabalho (TST).
A pesquisa alerta para o risco elevado de endividamento entre trabalhadores de plataformas digitais, resultado da instabilidade da renda, dos custos operacionais elevados e da oferta de empréstimos pelas próprias empresas de transporte por aplicativo.
A motorista de aplicativo Bárbara Sousa, de 28 anos, moradora de Brasília, afirma que vivenciou recentemente uma situação que considera comum na profissão. Após enfrentar problemas mecânicos no veículo, incluindo falha no motor e vazamento de óleo, ela precisou gastar cerca de R$ 2,5 mil com reparos.
Segundo Bárbara, a despesa acabou sendo parcelada no cartão de crédito. Ela relata que consegue obter uma renda diária próxima de R$ 300, mas afirma que os ganhos se tornam insuficientes quando precisa interromper o trabalho por qualquer motivo.
“É preciso trabalhar muito, umas 10 a 12 horas, para conseguir uma renda para sobreviver e pagar as dívidas”, disse.
De acordo com o levantamento, o Brasil possui mais de 1,7 milhão de pessoas atuando por meio de plataformas digitais e aplicativos de serviços. O estudo destaca que as empresas do setor não reconhecem vínculo empregatício e transferem aos trabalhadores os custos e riscos da atividade.
Além disso, os pesquisadores apontam que as plataformas costumam descontar entre 20% e 30% do valor das corridas pela intermediação do serviço. Em alguns casos, empréstimos concedidos aos motoristas também são descontados diretamente dos repasses recebidos pelos profissionais.
Para os autores da pesquisa, esse modelo reproduz práticas históricas de dependência financeira, agora adaptadas ao ambiente digital.
O levantamento do Centro de Pesquisas Judiciárias, Estatística e Ciência de Dados do TST estima que os custos mensais de operação ultrapassam R$ 5 mil. O cálculo considera um motorista que trabalha 22 dias por mês, durante oito horas diárias, em ambiente urbano.
Segundo os dados, motoristas que utilizam veículo próprio têm despesas médias de R$ 5.566 por mês. Já aqueles que trabalham com carros alugados enfrentam gastos estimados em R$ 5.706 mensais.
Entre os principais custos estão combustível, manutenção, depreciação dos veículos, seguros, tributos, alimentação, multas e pacotes de internet móvel.
O estudo também aponta que a jornada média semanal dos trabalhadores de plataformas digitais chega a 44,8 horas.
Ao divulgar os resultados, o presidente do Tribunal Superior do Trabalho, ministro Luiz Philippe Vieira de Mello Filho, afirmou que a ideia de liberdade empreendedora frequentemente associada ao setor pode ocultar condições precárias de trabalho.
“O trabalho em plataformas digitais é marcado pela profunda precarização, cumprimento de jornadas extenuantes, baixas remunerações e alto controle por algoritmos”, declarou.
Em entrevista concedida à Agência Brasil no ano passado, o cientista político Leonardo Sakamoto também criticou o modelo de negócios das plataformas. Segundo ele, muitos trabalhadores foram levados a acreditar que atuariam como empreendedores independentes, mas enfrentam dificuldades devido à divisão dos ganhos com as empresas.
Para Bárbara Sousa, que trabalha com aplicativos há quatro anos, a situação gera incerteza sobre o futuro na profissão.
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